50 anos dos primeiros cursos regulares de relações públicas no Brasil, por Mirtes Torres* Muitos autores sugerem que as relações públicas remontam às próprias origens do ser humano, desde quando este sentiu a necessidade de se comunicar com seus semelhantes. Argumentam eles que já nos primórdios de nossa história se praticava a arte do bom relacionamento. Foi o norte-americano Edward Bernays quem, realmente, deu o primeiro passo no sentido de vincular as relações públicas a um passado mais remoto. Ele dizia acreditar que, uma vez que haja condutores e conduzidos, também existe a possibilidade de uma atividade de relações públicas. De qualquer forma, as relações públicas, como hoje as entendemos, começaram a adquirir seu contorno nos Estados Unidos a partir do final do século XIX e, principalmente, no início do século XX. Foi ali que elas passaram a se desenvolver com maior rapidez e a despertar as atenções de outros países. É interessante verificar quando e por que a realidade norte-americana forneceu subsídios para a construção de uma atividade que, na época, sugeria uma nova operacionalidade informativa com o intuito de estabelecer e administrar os conflitos entre as organizações e seus públicos. Com o aparecimento da Revolução Industrial, já bem cedo as partes lesadas, no relacionamento entre as organizações e seus públicos, começaram a expor suas reivindicações. Além disso, a sociedade americana, em razão de uma autoconsciência valorativa, promovia a participação de todos em todos os assuntos de comum interesse, devendo para tanto empenhar o seu sentido de responsabilidade comunitária e o seu direito à informação. Observe-se que o completo alcance das mudanças que acompanharam o desenvolvimento das relações públicas nos Estados Unidos também se deve ao fato de aproximadamente um quarto da população estar, direta ou indiretamente, vinculado a atividades educacionais. Supõe-se, assim, que o fato significativo, para o estudioso da área, é que a disseminação das facilidades educacionais aumenta a expectativa e exigência dos cidadãos. Já no Brasil, onde queremos chegar, diante de todo o seu processo sócio-econômico, a conjuntura, quando do surgimento das relações públicas, não era semelhante à norte-americana. Em nosso País, em todo o seu passado do período colonial, do Império e da Primeira República, nunca houve, na verdade, a possibilidade de comunicação ou troca efetiva de informações de interesse comum entre os níveis extremos da hierarquia social. Assim, a profissão de relações públicas de fato só poderá ser analisada dentro de uma linha de compreensão do cenário empresarial brasileiro, observando-se que o contexto americano quando do surgimento das relações públicas naquele país, apesar das semelhanças, não foi reproduzido no Brasil. É importante ressaltar que, na América Latina, o grande destaque na área de Relações Públicas recai sobre o Brasil, onde ela despontou no ano de 1914, no âmbito empresarial, com a criação de um departamento específico na The São Paulo Light Tramway, Light and Power Company Limited, a atual Eletropaulo, pelo engenheiro Eduardo Pinheiro Lobo.
Nos estudos que realizamos, vê-se que a partir da década de 1930, com a progressiva dinamização da economia, da política e da organização social, a área de Relações Públicas ajudou a promover a conscientização do empresário, que, de forma geral, passou a considerar sua responsabilidade social. Com isso, foi possível compreender melhor a “via de mão dupla” de Bernays, cujo fundamento, como ensina Sylla Chaves, é o de que o interesse público e o interesse privado podem e devem coincidir.
Não podemos dissociar a evolução do ensino de relações públicas, no Brasil, das atividades que eram exercidas pelos primeiros profissionais e, principalmente, pelas atividades culturais que ocorriam paralelamente. Desta maneira, os aspectos históricos, evolutivos e participativos da área podem ser destacados em suas diversas etapas. As cidades começavam a modificar-se e novos centros comerciais passaram a ter um novo significado. Especialmente aqueles que tinham a sorte de poder reunir, pela proximidade, a matéria-prima, a energia, os transportes e as comunicações que trouxeram as indústrias e a estas atraíram as populações que se condensaram particularmente nas capitais e assistiram ao surgimento e à proliferação das construções verticais. A partir da década de 1930, o Brasil começou a trilhar um novo o caminho em busca do seu próprio destino.
Na década de 1940, embora os relações-públicas ainda não estivessem reunidos em uma associação, a profissão já existia, despertando curiosidade e interesse, levando os entendidos da área a promover uma série de palestras, com o objetivo de definir e delimitar o campo de ação e traçar novos rumos para a área.
Em 1942, a Revista do Serviço Público publicava um artigo intitulado “Relações da administração com o público”, de Newton Correia Ramalho, que pode ser considera como o marco inicial dos textos publicados sobre a atividade de relações públicas na esfera governamental federal. Em 1945, a mesma revista editava mais um artigo, “Relações entre a administração e o público”, de Celso Magalhães. Como se pode ver, desde o começo havia uma preocupação com o “público” e com o posicionamento das atividades de relações públicas ao lado da alta administração.
Destaca-se aqui a importante contribuição do Instituto de Administração da Universidade de São Paulo, que já em 1949 promoveu uma série de conferências sobre relações públicas e seus vínculos com a propaganda e as ciências sociais. Liderava o trabalho o professor Mário Wagner Vieira da Cunha, com a colaboração da professora May Nunes de Souza, já então uma destacada profissional de relações públicas, que faria parte do grupo pioneiro que, alguns anos depois, fundaria a Associação Brasileira de Relações Públicas.
Um seminário realizado no mesmo ano pelo instituto, no Centro de Estudos Cásper Líbero, contou com a colaboração de entidades e pessoas que acreditavam e pensavam na importância das “técnicas de relações públicas”, como elas eram entendidas então. Por isso, ele foi restrito aos interessados em relações públicas, uma vez que sua importância vinha sendo cada vez mais reconhecida pela alta administração das organizações. Os temas tratados foram publicados pelo instituto em forma de opúsculos, nos números 69 a 78, de maio a julho de 1949, das Publicações do Instituto de Administração, que constituem as primeiras do gênero na área de relações públicas, no Brasil. Ao mesmo tempo, ainda em 1949, na cidade do Rio de Janeiro, era promovido, pelo Departamento Administrativo do Serviço Público, um “Curso de relações com o público”, que teve como professores Ibany da Cunha Ribeiro e Diógenes Bittencourt Monteiro. E, já em 1950, o mesmo DASP publicava o opúsculo Relações da administração com o público, de Ibany Ribeiro da Cunha. Logo depois, em 1951, Mário Wagner Vieira da Cunha, do Instituto de Administração da Universidade de São Paulo, lançava o opúsculo Administração de negócios e os serviços de relações públicas.
Segundo Maria Stella Thomazi (1991), na ocasião o assunto ainda era uma novidade e poucos tinham noções básicas sobre ele. O que os organizadores dos seminários e cursos buscavam era levar os empresários e homens públicos a tomar conhecimento do que se fazia em nosso meio, mas, sobretudo, ajustar as experiências norte-americanas às condições essenciais do meio social, econômico e político brasileiro. Ademais, começavam a preocupar-se com o verdadeiro sentido das relações públicas, quando, até aquele momento, só se dava atenção às técnicas adotadas pela área.
Esses trabalhos e estudos, com que, além das entidades mencionadas, se envolviam também o Instituto de Organização Racional do Trabalho (Idort), em São Paulo, e a Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio de Janeiro e em São Paulo, já apontavam para a década de 1950, razão maior da presente memória.
Nessa década, já passado o regime do Estado Novo (1937-1945), o País, graças à nova Constituição promulgada em 1946, voltava a respirar os ares da democracia, com os presidentes Getúlio Vargas (1950-1954) e Juscelino Kubitschek de Oliveira (1956-1961). Grandes transformações ocorreram sob uma nova conjuntura econômica, incentivada pela política industrial desenvolvimentista, que atraiu para o Brasil grandes empresas multinacionais, ampliando-se e dinamizando-se o mercado interno.
Essas organizações trouxeram consigo uma cultura de valorização da comunicação, reproduzindo aqui experiências vividas em seus países de origem. Os departamentos de Relações Públicas das grandes empresas começaram a desenvolver-se progressivamente e, concomitantemente, passou-se a incrementar a realização de publicações, seminários e cursos sobre a atividade de relações públicas.
Graças a tudo isso, em 1953, instala-se entre nós o primeiro curso regular de Relações Públicas, promovido pela Escola Brasileira de Administração Pública, da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, sob o patrocínio das Organização das Nações Unidas. Ele foi ministrado pelo professor Eric Carlson, dos Estados Unidos, tendo como intérprete Sylla M Chaves. Dava-se, assim, seqüência, agora de maneira sistematizada, às iniciativas esparsas que vinham ocorrendo com o objetivo de valorizar e divulgar a atividade no Brasil.
Pelo que consta, Carlson transmitia e explicitava noções e funções básicas que hoje são de vital importância para a nossa profissão. A propósito, em outubro de 1953, a Revista do Idort publicava um artigo intitulado “O papel das relações públicas na racionalização do trabalho”, do próprio Carlson, resultado de uma conferência proferida por ele. O autor abordava enfoques de grande significação para as relações públicas, embora fazendo sempre a observação de que a experiência dizia respeito aos Estados Unidos. Entendia ele que a definição dada à atividade pelo Instituto Britânico de Relações Públicas parecia ser a mais adequada. Explanava a importância dos conceitos de relações humanas e relações públicas, delineando as responsabilidades da administração nesses campos e mostrando os benefícios de uma opinião pública favorável para gerar um clima de cooperação entre empregados e empregadores e aumentar a produtividade. E salientava que os executivos de vários países estavam estudando a filosofia e as políticas de relações públicas, buscando apreender suas técnicas.
Muitas das idéias inovadoras transmitidas nesses seminários e cursos encontraram eco em nomes que viriam a marcar a história das relações públicas no Brasil. Numa época em que o campo ia se abrindo com novas perspectivas e as empresas se preocupavam de forma crescente com a construção de um conceito positivo e a consolidação de sua identidade, surge um “Grupo de Relações Públicas”, que seria o núcleo inicial da Associação Brasileira de Relações Públicas (ABRP), fundada em março de 1954.
Os trabalhos prosseguiam, ocorrendo em 1955 mais um desses cursos regulares inaugurados em 1953 pela Fundação Getúlio Vargas, que desta vez trouxe o norte-americano Harwood Childs, docente da Universidade de Princeton, uma das maiores autoridades no mundo no que se referia à opinião pública. Participaram dele, entre outros, os professores Benedicto Silva, então diretor da escola, Murilo Mendes, Myra Lopes e Evaldo Silva Pereira. Seguindo as pegadas de Bernays, o curso contribuiu para difundir ainda mais o interesse pela causa de relações públicas que a iniciativa pioneira de Eduardo Pinheiro Lobo legara a toda a nação.
No início de 1962, surgiria o primeiro livro escrito por um brasileiro, Para entender relações públicas, de Cândido Teobaldo de Souza Andrade. Essa obra foi a primeira produzida na América Latina, segundo Thomazi. A década de 1960 seria assinalada também pela emissão da lei n. 5.377, de 11 de dezembro de 1967, que tornou a atividade privativa dos bacharéis de comunicação social com habilitação em relações públicas. Ainda no mesmo ano surgiria, enfim, na Escola de Comunicações Culturais da Universidade de São Paulo, a atual Escola de Comunicações e Artes, o primeiro curso superior efetivo de Relações Públicas, com quatro anos de duração, ao qual logo se seguiriam outros nas universidades brasileiras - A presente memória teve como base, principalmente, Maria Stella Thomazi. Esse contexto evolutivo das relações públicas no Brasil também é desenvolvido de forma abrangente e sistematizada, ao longo das diferentes décadas do século XX, por Margarida M Krohling Kunsch (1997).
Referências Bibliográficas ANDRADE, Cândido Teobaldo de Souza. Para entender relações públicas . 4a. ed. São Paulo: Biblos, 1993. BERNAYS, Edward L. Los años últimos: radiografía de las relaciones públicas - 1956-1986. Barcelona: ESRP:PPU, 1990. CHAVES, Sylla M. Aspectos de relações públicas. Rio de Janeiro: DASP - Serviço de Documentação - Seção de publicações, 1966. KUNSCH, Margarida Maria Krohling. Relações públicas e modernidade: novos paradigmas na comunicação organizacional. São Paulo: Summus, 1997. THOMAZZI, Maria Stella. Contribuição da Associação Brasileira de Relações Públicas para a profissão de relações públicas no Brasil. São Bernardo do Campo, 1986. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) - Instituto Metodista de Ensino Superior. ____________. O ensino e a pesquisa em relações públicas no Brasil e sua repercussão na profissão. São Paulo, 1991. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação) - ECA-USP. TORRES, Mirtes Vitoriano. Eduardo Pinheiro Lobo: pioneirismo das relações públicas no Brasil. São Bernardo do Campo, 2002. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) - Universidade Metodista de São Paulo. ![]() |