Para Entender RP/RP em Expressão  


Antes da gestão, o conhecimento: da teoria à prática,
por Luiz Alves*
 

    Antes de se conceituar gestão do conhecimento, há a necessidade da definição isolada do termo conhecimento e de seus elementos constituintes: dados e informações, pois, a geração dele se dá através da interpretação de informações geradas pelo processamento de dados.

    Sob uma ótica generalista, e, de acordo com Davenport e Prusak (1998 p.2) dados são, "observações sobre o estado do mundo (...), um conjunto de fatos distintos e objetivos, relativos a eventos". Porém, sob uma ótica corporativista, e ainda, segundo Davenport e Prusak (1998 p.2), "dados são utilitariamente descritos como registros estruturados de transações (...), são importantes para as organizações - em grande medida, certamente, porque é matéria - prima essencial para a criação de informação". O processamento de dados quando carregados de propósitos, gera a informação, que "visa modelar a pessoa que a recebe, no sentido de fazer alguma diferença em sua perspectiva ou insight", (PRUSAK, 1998,p. 4).

    A interpretação das informações as transforma e, finalmente, as eleva ao status de conhecimento. Ao contrário da informação, o conhecimento é orientado para a ação, e, determina a excelência do exercício prático. Fazendo uma transgressão e buscando uma aplicação adequada no ambiente organizacional. Deve-se salientar a distinção dos conceitos, criados por Michael Polanyi, de conhecimento tácito (habilidades e experiências) e explícito (dados e informações). Pois, é a interação destes dois tipos de conhecimentos que se expande o intelecto humano.

    A revolução industrial do século XX e a tecnologia da informação proporcionaram o surgimento de novos modelos de gestão organizacional, exigindo também, dos atores sociais posturas e procedimentos capazes de captar, gerenciar e disseminar informações e conhecimentos. Daí, o modelo em questão passa a ser incorporado pelas organizações.

    A gestão do conhecimento é um processo sistematizado, que tem como premissa básica, buscar, estruturar, codificar e disseminar informações e conhecimentos, de tácitos em explícitos, de tácitos em tácitos, de explícitos em explícitos, seja por meios tradicionais de armazenamento de informações, seja por instrumentos de tecnologia da Informação. No entanto, cabe aos gestores adequar o projeto a cada ambiente corporativo, pois segundo KUNCH (2002), todo o planejamento, seja ele de qualquer natureza, exige dos líderes uma efetiva análise sócio-ambiental da organização, antes da implantação do programa.

    O SEGREDO DA EVOLUÇÃO - No mercado altamente globalizado, em um mundo plano, parafraseando Thomas L. Friedman em "O mundo é plano", as organizações tendem a se diferenciar pelo conhecimento e pela administração dele. Esta minúcia pode ser percebida na geração ou aperfeiçoamento de vantagens competitivas, ou, simplesmente, na melhoria de processos. O fato é que quase sempre, há aprimoramento técnico diante de um adequado gerenciamento do conhecimento empresarial.

    Um dos principais aspectos a ser considerados na definição das estratégias para a formatação de um sólido projeto de gestão do conhecimento é o padrão de armazenamento da memória institucional e de sua transmissão no ambiente corporativo. Porém, tal projeto não estaria completo, caso não fosse considerada a determinante "interferência do ambiente externo".

    Certamente, um dos países que mais tem suscitado curiosidade e provocado estudos sobre a sua situação nos últimos anos é o Japão. A força da sua economia, hoje, a segunda do mundo,(mesmo em época de crise); a sua cultura milenar que convive ao lado da sofisticação tecnológica, está em grande parte desenvolvida pelo próprio esforço de pesquisa e inovação das empresas japonesas; e, também, o sucesso das suas indústrias, que se tornaram competitivas em vários setores de atividade, sobretudo, nos segmentos de automóveis, produtos eletrônicos, materiais fotográficos, entre outros.

    A partir de então, as empresas japonesas começam a praticar um conjunto de idéias inovadoras de gestão que passaram a revolucionar o modo de administrar uma empresa. Entre elas: (I) Qualidade Total (Total Quality Control) sobre o processo de produção (ao invés de focar a qualidade no produto), visando satisfazer a expectativa do cliente; (II) Círculos de Controle de Qualidade (CQC): grupos informais de trabalhadores que espontaneamente passam a buscar soluções criativas para os problemas da área ou da empresa; (III) Método Ringi de Decisão: trata-se da decisão consensual, obtida através do comprometimento individual com o resultado ou meta decidida pelo grupo; (IV) Just-in-Time: integração da empresa com seus fornecedores, permitindo a eliminação de estoques com o suprimento atendido no momento da utilização dos componentes na produção; dentre outros.

    A partir deste conjunto de práticas gerenciais, as empresas japonesas já desenvolviam características peculiares diferentes das ocidentais. No modelo administrativo americano é fácil perceber que ele é gerido pela tecnologia da informação, isto, pela vasta utilização de dados e Administração de Marketing.

    Outro ponto importante é a definição de manuais operacionais, onde se podem encontrar os padrões definidos para todos os procedimentos empresariais, desde os mais simples aos mais complexos. Essa padronização de informações, aliados a uma legislação rigorosa e o sistema de cobrança social, faz com que o modelo de gestão da informação faça parte de um conceito denominado de padrão americano de consumo, onde as responsabilidades, tanto dos consumidores quanto de quem presta serviços estejam amplamente delimitadas.

    A velocidade do fluxo de informações que se tornou possível com a popularização da TI, e não nos princípios de gestão de operações, no que tange aos sistemas de informação específicos para desenvolvimento da efetividade operacional externa, destacam-se hoje os softwares de gerenciamento da cadeia de suprimentos (SCM - Supply Chain Management) e de gerenciamento do relacionamento com os clientes (CRM - Customer Relationship Management).

    De forma resumida, pode-se considerar que, assim como no Modelo Japonês, enquanto na vertente da "logística a montante" (em direção ao fornecimento) normalmente o que se deseja é obter melhores desempenhos operacionais na cadeia de suprimentos como um todo, na vertente do "marketing a jusante" (em direção ao consumo), normalmente a meta recai sobre o ajuste quantitativo e qualitativo da oferta da empresa à demanda dos clientes.

    No Brasil, o panorama da gestão do conhecimento nas organizações revela que a informalidade ainda impera, mesmo, nas grandes empresas. De acordo com pesquisa publicada na Revista HSM Management de janeiro a fevereiro 2008, realizada com uma amostra de entrevistados composta por executivos de 200 empresas de grande porte sediadas no Brasil, 57,7% delas afirmaram utilizar técnicas de gestão do conhecimento, sendo que mais da metade (29,6%) o fazem informalmente. Outros 34% ainda não fazem uso de qualquer técnica de gestão do conhecimento, no entanto, pretendem adotá-las.

    Considerando o total de empresas no Brasil que já utilizam técnicas de gestão do conhecimento, ainda que informalmente, e as que pretendem adotá-las, se conclui que em breve a apropriada aplicação de tais técnicas deixará de ser tendência e passará a ser uma realidade. Neste ponto, além da própria empresa, todos os demais elementos envolvidos no composto mercadológico (fornecedor, distribuidor, consumidor final e sociedade) serão favorecidos com a otimização dos processos, redução de custos, aumento da receita, agilidade para tomada de decisões e outros aspectos mais intangíveis, mas, não menos importantes.

    A aplicação da gestão do conhecimento nas empresas torna-se crucial. Porém, é preciso antes de tudo, compreender o contexto cultural de cada organização para a efetiva implantação. O uso das TI's pode ser uma ferramenta fundamental, desde que se adéque ao ambiente corporativo, embora, a valorização do coletivo e da interatividade grupal não deve ser menosprezada. As empresas que não se atentar para essa nova realidade e não se utilizar dessa imprescindível ferramenta empresarial, ou sofrerão "glaucoma" no seu ciclo evolutivo ou serão engolidas pela concorrência.

     Referências Bibliográficas

REVISTA HSM: Management de Janeiro - Fevereiro 2008;

VASCONCELOS, Flávio. Revista de Administração de Empresas: Da Gestão do Conhecimento à Gestão da Ignorância, (2001).

KANITZ, Stephen (2005). Revista Veja: Qual é o Problema?.

EBOLI, Marisa. Coletânea Universidades Corporativas: Educação para as empresas do século XXI. São Paulo: Schmukler Editores, 1999;

MEISTER, Jeanne C. Educação Corporativa; tradução: Maria Claudia Santos 1999;

SANTOS, Antonio Raimundo dos. Metodologia cientifica: a construção do conhecimento. 2. Ed. Rio de Janeiro: DP&A editora, 1999.

KUNCH, Margarida Khroling. Planejamento da Comunicação organizacional integrada, SP, 2002.


     * Relações Públicas pela UNIBAHIA, Pós Graduando com MBA em Marketing pela UNIFACS (Universidade Salvador). Artigos publicados em sites e revistas especializadas. Atualmente é membro do MBAF Consultores e Advogados. E-mail: luiz@mbaf.com.br .

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